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Postagens

A ferida aberta: por que nos sentimos sós no mundo — diagnóstico

Foto de SIMON LEE na Unsplash Primeiro de uma série de quatro posts sobre a semiótica de João de São Tomás, John Deely e Scott Randall Paine, e o que ela tem a ver com a nossa vida. Há uma ferida que carregamos sem saber que a temos. Ela não sangra, não dói de forma localizável, não aparece em exames. Mas está lá, e se manifesta na sensação difusa de que estamos separados de tudo. Separados do mundo, separados dos outros, separados até de nós mesmos. Como este post é o primeiro de uma série, vamos começar pelo diagnóstico.   O diagnóstico: uma fratura que não é natural. Imagine que você acorda um dia e descobre que está trancado dentro de um quarto. As paredes são lisas, não há portas, não há janelas. Você consegue ver o mundo lá fora através de uma fresta — mas nunca tocar, nunca cheirar, nunca habitar. Tudo o que você tem são imagens  do que está além. Essa é a condição que a filosofia moderna nos legou. A partir de Descartes, passamos a acreditar que não conhecemos o mundo...

O barro e o erro: sobre a beleza do que se quebra e se refaz

Há uma frase de Santo Agostinho que me acompanha há anos: "Tu eras mais interior do que o íntimo de mim mesmo. Ela me lembra que o caminho para a verdade não é o da fuga para fora, mas o do recolhimento para dentro, para aquele lugar onde Deus habita e onde somos mais nós mesmos do que em qualquer outro lugar. No entanto, esse recolhimento não é fácil. Ele exige que olhemos para as nossas rachaduras. Criados num mundo que celebra a superfície impecável, nos esforçamos para escondê-las. Durante anos, eu também escondi as minhas. Adiei projetos porque "ainda não estavam perfeitos". Calei ideias por medo do julgamento. Confundi a busca da excelência com a tirania da perfeição. Até que percebi, com o tempo e com a graça, que o maior erro de todos era justamente não querer errar. Escrevi um livro sobre isso. Não porque tenha encontrado a fórmula, mas porque precisei colocar no papel o que a vida me ensinou, a mim e a tantas pessoas que acompanho no consultório, na orientação ...

Ensaio: O Peregrino, o Educador e a Fenomenóloga – um diálogo sobre a formação da pessoa

Este ensaio busca estabelecer um diálogo entre três grandes mestres da espiritualidade e da educação: Inácio de Loyola (a experiência do peregrino), João Bosco (o Sistema Preventivo) e Edith Stein (a antropologia filosófica da pessoa). A tese central é que os três convergem para uma mesma intuição fundamental: a formação humana é um processo de "educação do coração" que respeita a liberdade, atinge o núcleo mais profundo da pessoa e a orienta para o seu fim último, que é Deus.   Introdução: Três Caminhos, Uma Mesma Verdade O artigo "O peregrino: Quando Deus não entrega um mapa, mas educa o coração" nos apresenta a espiritualidade inaciana como uma jornada de confiança e discernimento, onde Deus é o grande Educador que forma o coração humano na liberdade. Esta imagem ressoa perfeitamente com o Sistema Preventivo de Dom Bosco, que via em cada jovem um "ponto acessível ao bem" a ser descoberto e desenvolvido. Mas é na filosofia de Edith Stein que encontramos ...

Ensaio: A pessoa e as sucessivas cirurgias estéticas — uma leitura em quatro sentidos

+   Advertência prévia, que é também parte do método: ler a vida de alguém como se lê um texto sagrado exige, antes de tudo, reconhecer que não somos os autores dessa vida, nem temos acesso pleno às suas motivações internas. O que segue não é um veredito sobre nenhuma pessoa real, mas um exercício de discernimento — uma chave oferecida, não uma sentença aplicada. A ágape pede que comecemos suspeitando primeiro de nós mesmos: de que lugar julgamos? Sentido Literal — o fato Uma pessoa se submete, de forma reiterada, a intervenções cirúrgicas, sem que haja indicação médica corretiva ou funcional. O fato, em si, é neutro: um corpo alterado, um bisturi, uma sala de recuperação revisitada várias vezes. A literalidade não julga — apenas descreve. E a descrição honesta já exige humildade: não sabemos, olhando de fora, se por trás de cada cirurgia há vaidade, dor, trauma, busca de aceitação, expressão de identidade, ou combinações de tudo isso que nem a própria pessoa consegue nomear intei...

O plano radical de Deus: muito além do autoaperfeiçoamento

O plano de Deus para me transformar é muito mais radical do que qualquer coisa que eu possa imaginar ou planejar. Posso até decidir simplesmente fazer a coisa certa, escolher o caminho correto, mas isso nunca se resume a um programa de autoaperfeiçoamento. O projeto de Deus é infinitamente mais grandioso. Ele não quer apenas que eu escolha o certo: quer que eu escolha o caminho certo com todo o meu ser. Por mais que eu às vezes pense de modo diferente, a verdadeira transformação espiritual não se resume a evitar o pecado. Deus quer mudar a forma como escolho, e não apenas o que escolho. Deseja dar-me um transplante de coração: retirar o meu coração endurecido, egocêntrico e teimoso e colocar, em seu lugar, o coração d’Ele. Depois disso, convida-me a deixar que esse novo coração guie todas as minhas decisões — um coração redimido que conduz a escolhas redimidas. A força de vontade, por mais forte que seja, nunca consegue elevar-me até Deus. Mas, no nível mais profundo e verdadeiro dos m...

Na ânsia de transcender o que é humano

Na ânsia de transcender o que é humano, muitas pessoas são ensinadas a desacreditar das emoções, parte fundamental da sua existência. Domina uma visão simplista que as trata como meros eventos superficiais, passageiros e que podem enganar, devendo ser subjugadas pela racionalidade e pela vontade. Contudo, essa visão não só torna mais pobre a nossa forma de entender o caminho espiritual, mas também nos afasta da chance de uma conexão completa e verdadeira com o Divino. É verdade que a parte mais superficial dos nossos sentimentos (aqueles humores que mudam com o cansaço, o ambiente ou a química corporal) não é uma base confiável para decisões importantes. Se transformamos essas emoções em nossa bússola principal, elas podem, de fato, nos levar a grandes erros. Mas descartar toda a nossa vida emocional por causa dessa instabilidade superficial é como confundir a espuma das ondas com a vastidão e a profundidade do oceano. O psicólogo e autor David G. Benner nos convida a olhar para as cam...

Cuidado Intensivo da Alma: uma abordagem holística

O cuidado intensivo da alma (intensive soul care) abrange uma abordagem multidisciplinar focada em aprimorar o bem-estar espiritual , frequentemente integrado a práticas psicológicas e terapêuticas, particularmente em contextos de estresse elevado, doença ou trauma. Esse conceito se estende além do tratamento médico convencional para abordar as necessidades holísticas  dos indivíduos, reconhecendo a espiritualidade como um aspecto fundamental  da experiência humana que influencia profundamente a saúde mental e física.   Espiritualidade em Ambientes Clínicos Em ambientes clínicos, como as unidades de terapia intensiva (UTIs) , o cuidado espiritual é reconhecido como um componente crucial da assistência à saúde de alta qualidade para pacientes em estado grave e seus familiares. O ambiente da UTI, caracterizado pelo estresse e pelo foco na sobrevivência do paciente, frequentemente leva ao sofrimento psicoemocional e espiritual tanto para os pacientes quanto para seus famili...