Na ânsia de transcender o que é humano
Na ânsia de transcender o que é humano, muitas pessoas são ensinadas a desacreditar das emoções, parte fundamental da sua existência. Domina uma visão simplista que as trata como meros eventos superficiais, passageiros e que podem enganar, devendo ser subjugadas pela racionalidade e pela vontade. Contudo, essa visão não só torna mais pobre a nossa forma de entender o caminho espiritual, mas também nos afasta da chance de uma conexão completa e verdadeira com o Divino.
É verdade que a parte mais superficial dos nossos sentimentos (aqueles humores que mudam com o cansaço, o ambiente ou a química corporal) não é uma base confiável para decisões importantes. Se transformamos essas emoções em nossa bússola principal, elas podem, de fato, nos levar a grandes erros. Mas descartar toda a nossa vida emocional por causa dessa instabilidade superficial é como confundir a espuma das ondas com a vastidão e a profundidade do oceano.
O psicólogo e autor David G. Benner nos convida a olhar para as camadas mais profundas dentro de nós. No centro do nosso ser, moram experiências afetivas raras e que nos transformam: os momentos unitivos. São aquelas percepções súbitas e tranquilas, seja durante a oração profunda ou diante da beleza imensa da natureza, em que o ego desaparece e somos tomados por uma sensação de conexão com o Todo. O tempo parece parar, e uma clareza impressionante nos mostra a presença divina de uma forma que vai muito além da nossa mente. Nesses momentos, não pensamos em Deus; sentimos sua proximidade de maneira inesquecível, junto com um profundo respeito e bem-estar.
Entre a espuma superficial e essas profundezas oceânicas, existe uma zona intermediária fundamental para os nossos sentimentos. É aqui que o caminho do discernimento realmente acontece. Neste nível, não estão as reações rápidas, mas sim as "disposições de ânimo" e os "sentimentos arraigados" — padrões emocionais mais duradouros que mudam como vemos o mundo e Deus. Nesta fase, a diferença entre emoção e intuição é muito sutil, quase invisível. É o "conhecimento sentido", uma sabedoria que vem do coração e que não é tão evidente quanto um sentimento passageiro, nem tão difícil de explicar quanto uma experiência unitiva.
É justamente nesta zona intermediária que podemos e devemos aprender a viver. Cultivar um "coração discernente" significa desenvolver a habilidade de perceber estas correntes mais profundas. Isso exige o que o padre e escritor espiritual Henri Nouwen chamou de "solidão do coração" — não apenas estar sozinho fisicamente, mas uma calma interior, receptiva, construída no silêncio e na presença de Deus. É nesse lugar de escuta atenta que começamos a perceber os movimentos delicados da alma: o conforto que nos leva ao bem, a inquietude que nos afasta do mal, a paz que indica o caminho certo.
Quando nos encontramos de verdade com Deus, saímos desse encontro não apenas com novas ideias, mas transformados em nossa essência emocional mais profunda. Nossos pensamentos podem tentar descrever a gratidão, mas são as emoções da zona intermediária — a paz que permanece, a alegria que resiste, uma compaixão que nasce no fundo da alma — que carregam a verdadeira dimensão do impacto divino em nossa vida.
Portanto, a espiritualidade que busca ser completa não pode deixar as emoções de lado, tratando-as como distrações ou ilusões. Pelo contrário, deve reconhecê-las como um espaço sagrado, um canal vital por onde Deus não só fala, mas também transforma. A missão de quem busca a espiritualidade não é calar o coração, mas sim educá-lo, purificá-lo e aprofundá-lo, aprendendo a navegar desde a instabilidade da superfície até as correntes profundas onde a vontade humana e a divina se unem em silêncio e terno acordo.

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