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O ÚLTIMO HOMEM LIVRE

O ÚLTIMO HOMEM LIVRE

Pedrinho não tinha nome, apenas um apelido: Filho do Seo Pedro. Ele foi o primeiro a ser curado da normose. Agora, enxergava o mundo cheio de certezas absolutas e sorrisos perfeitos. Ele via a teia de fios dourados que conectava todos na rua e até sentia inveja. Quis mesmo partilhar daquela teia radiosa e maravilhosa. As pessoas marchavam apressadas e convictas, sorriam e concordavam, faziam seus negócios e prosperavam.

Mas, o diagnóstico estava errado. Ele não era o primeiro a ser curado. Era o único que ainda não havia sido infectado pelo novo patógeno tecnológico alienígena de conformidade que varreu a Terra. Os humanos ao seu redor não estavam doentes. Estavam perfeitamente adaptados. Ele era a aberração. A falha. A última peça a ser recolocada no lugar.

Anos se passaram. Pedrinho cresceu e virou o Seo Pedro, aquele que se escondia nas sombras, porque doía se sentir livre, o último farol de consciência em um mundo adormecido, ele era um monstro de perguntas. O peso esmagador de cada escolha — que roupa vestir, que rumo tomar, qual profissão escolher, shih-tzu ou zwergspitz, casar e constituir família estava fora de questão — era seu novo e solitário inferno. A liberdade, descobriu, era a mais terrível das sentenças.

Um dia, uma criança o viu. Seus olhos não eram vazios, mas cheios de uma pena profunda e antiga.

"O pobre homem doente", sussurrou ela para a mãe, apontando para Pedro. "Por que ele ainda não foi consertado?"

 

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