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Crescer: os três movimentos da vida espiritual



INTRODUÇÃO

Em uma sociedade que dá muito valor ao desenvolvimento, ao progresso progresso e às conquistas, a vida espiritual torna-se com facilidade objeto de preocupações, como as expressas nas perguntas: "Quão adiantado estou?"; "Amadureci desde que entrei na senda espiritual?"; "Em que nível estou e como passo para o próximo?"; "Quando alcançarei o momento de união com Deus e a experiência da iluminação?" Ainda que questões como essas não sejam desprovidas de sentido, podem tornar-se perigosas contra o pano de fundo de uma sociedade orientada para o sucesso. Muitos santos descreveram suas experiências religiosas, e muito poucos as sistematizaram em fases, níveis ou estágios. Essas distinções podem ser úteis para quem escreve livros e para quem os usa para instruir, mas é de grande importância que deixemos para trás o mundo das medidas quando falamos a respeito da vida do Espírito. Uma reflexão pessoal pode ilustrar isso:

Quando, depois de anos de vida adulta, pergunto a mim mesmo "Onde estou como cristão?", há tantos motivos para ser pessimista como para ser otimista. Muitas das verdadeiras lutas de vinte anos atrás ainda estão bem vivas. Ainda procuro a paz interior, os relacionamentos criativos com os outros e a experiência de Deus, e nem eu, nem ninguém tem como saber se as pequenas mudanças psicológicas dos últimos anos fizeram de mim um homem mais ou menos espiritual.

Podemos dizer, no entanto, uma coisa: entre todas as nossas preocupações, muitas vezes perturbadoramente semelhantes ao longo dos anos, podemos tornar-nos mais conscientes dos diferentes polos entre os quais nossa vida vacila, mantida sob tensão. Esses polos criam o contexto no qual se pode falar a respeito da vida espiritual, pois podem ser reconhecidos por qualquer um que se esforce para viver uma vida no Espírito de Jesus Cristo.

A primeira polarização está ligada à relação de cada um consigo mesmo: é a polarização entre o isolamento e a solidão. A segunda polarização é a base de nossa relação com o outro: é a polarização entre hostilidade e hospitalidade. A terceira, a última e mais importante polarização estrutura nossa relação com Deus: é a polarização entre ilusão e prece. Durante a vida, vamos tomando consciência não apenas do nosso gritante isolamento, mas também do nosso desejo sincero de uma solidão do coração; chegamos à dolorosa compreensão não apenas de nossas hostilidades cruéis, mas também de nossa esperança de receber nossos semelhantes com uma hospitalidade incondicional; e sobretudo descobrimos não apenas as ilusões infinitas, que nos fazem agir como se fossemos mestres de nosso destino, mas também o dom precário da prece escondido nos recônditos de nosso ser mais profundo. Assim, a vida espiritual é esse movimento constante entre os polos do isolamento e da solidão, da hostilidade e da hospitalidade, da ilusão e da prece. Quanto mais chegamos à dolorosa confissão do nosso isolamento, das nossas hostilidades e das nossas ilusões, mais somos capazes de incluir a solidão, a hospitalidade e a prece em nossa visão da vida. Ainda que, depois de muitos anos de vida, muitas vezes nos sintamos mais sozinhos, hostis e iludidos do que quando tínhamos um curto passado sobre o qual refletir, também sabemos melhor do que antes que todas essas dores aprofundaram e reforçaram nossa necessidade de alcançar um modo de existência solitário, hospitaleiro e cheio de prece.

Assim, escrever sobre a vida espiritual é como fazer estampas a partir de um negativo. Talvez seja exatamente a experiência do isolamento que nos permita descrever as primeiras desajeitadas linhas de solidão. Talvez seja precisamente o chocante confronto com o eu hostil que nos dê palavras para falar a respeito de hospitalidade como uma opção real, e talvez nunca encontremos a coragem para falar a respeito da prece como uma vocação humana sem a perturbadora descoberta de nossas próprias ilusões. Muitas vezes, é a floresta escura que nos faz falar do campo aberto. Muitas vezes, a prisão nos faz pensar na liberdade, a fome nos ajuda a dar valor ao alimento e a guerra cria palavras para a paz. Da mesma forma, nossas visões do futuro nascem dos sofrimentos do presente, e nossa esperança para os outros, de nosso próprio desalento. Poucos "finais felizes" fazem-nos felizes; muitas vezes, uma cuidadosa e honesta articulação das ambiguidades, incertezas e dolorosas condições da vida dá-nos nova esperança. O paradoxo é que a nova vida nasça das dores da velha.

A vida de Jesus deixou claro que a vida espiritual não permite desvios; ignorar o isolamento, a hostilidade e a ilusão nunca nos levará à solidão, à hospitalidade e à prece. Nunca teremos certeza de compreender totalmente a nova vida que podemos descobrir na velha. Talvez morramos isolados e hostis, levando nossas ilusões para o túmulo. Mas quando Jesus nos diz para tomarmos nossa cruz e segui-lo (Mc 8,34), somos convidados a buscar muito além da nossa condição fragmentada e pecadora e dar forma a uma vida que aprofunda as grandes coisas que estão preparadas para nós.

Devido à convicção de que viver uma vida espiritual significa antes de tudo chegar à compreensão das polarizações internas que nos mantém sob tensão, este livro é dividido em três partes, cada uma representando um movimento diferente da vida espiritual. O primeiro movimento, do isolamento à solidão, relaciona-se principalmente à vida espiritual em conexão com a experiência do nosso ser. O segundo movimento, da hostilidade à hospitalidade, tem relação com a vida espiritual enquanto vida para o outro. O terceiro e último movimento, da ilusão à prece, oferece algumas tentativas de formulação do relacionamento mais precioso e misterioso, fonte de toda a vida espiritual: nossa relação com Deus.

Nem é quase necessário enfatizar que esses movimentos não são claramente separados. Certos temas reaparecem em movimentos diferentes, em várias tonalidades, e muitas vezes misturam-se como os movimentos de uma sinfonia. Mas as distinções, espero, irão nos ajudar a reconhecer os diferentes elementos da vida espiritual, dessa forma nos encorajando a buscar nós mesmos, nosso semelhante e nosso Deus.

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Excerto de: Nouwen, Henri J. M. Crescer: Os três movimentos da vida espiritual / Henri J. M. Nouwen; [Tradução: Marcos Viana Van Acker]. - São Paulo: Paulinas, 2000. - (Coleção: Sopro do Espírito). ISBN 85-356-0266-6

 

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