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Um homem sentado à beira da praia...

Um homem sentado à beira da praia... Parado. Imóvel há mais de quatro horas. Olhava para o mar... Longe... Quem passasse por alí talvez nem percebesse o que estava se passando dentro daquele homem. Talvez ninguem percebeu que havia um homem. Talvez algumas lágrimas tenham escorrido do seu rosto gordo. Depois ele emagraceria, e muito, muito por causa da dor.

Quem conhece a cidade de Santos pode imaginar um homem de boa apariência, nem mais nem menos, nem pobre nem rico, nem alto nem baixo, talvez um pouco robusto, ou gordo, gorducho, também nem tanto. Parece mais ou menos 45 anos, sentado na mureta do quebra-mar, olhando ao longe... Longe... Quem não já fez isso? Esse homem pensava, pensava, pensava:

-- Poxa! Não tenho mais dinheiro! Nenhum dinheiro! Nada!... Nada!...

Talvez tivessem se passado mais de quatro horas mergulhado naquele pensamento. Não havia outro. Só aquele pensmento. Nem ele sabia quanto tempo esta alí, e ninguém vai saber ao certo. Mas parece que foram mais de quatro horas. Parado. Imóvel. Pensando...

-- Perdi tudo! Não tenho mais dinheiro! Nenhum dinheiro! Nada!... Nada!...

O pensamento sugeria algumas alternativas: atirar-se ao mar, um tiro na boca... Não isso não daria porque não tinha dinheiro para a munição. Talvez o trânsito... cnversava silenciosamente consigo mesmo.

-- ... um ônibus desses que trafega em alta velocidade pela avenida à beira mar, bem que poderia me atropelar acidentalmente. Ah! Talvez seja mais doce o beijo da morte.

Como deve ser doce o beijo da morte. Dizem que a morte é um anjo encantador, gentil, e que quando se deixa ver por seus escolhidos, é de uma beleza estonteante. Dizem que não dá para separar o que é a beleza da pureza da beleza sensual. É um misto de epifania que beira a pornografia, tamanha é a atração que a beleza desse anjo exerce sobre seus eleitos, seus amados, que se tornam imediatamente seus amantes. Por favor, não me livrem dos seus abraços quando me virem com ela. Ah! A Morte!

-- Não tenho mais dinheiro! Nenhum dinheiro! Nada!... Nada!... Nem prô pãozinho!

Aquele homem havia sido um dos maiores exportadores de café do Brasil. Dizem que foi um dos três maiores. Era a nata da nata! Poucas pessoas podem imaginar como seria a vida com tamanha opulência. Ser um dos homens mais poderosos de um país em desenvolvimento é quase mais do que ser rei ou rainha da Inglaterra. Você duvida? Acha que eu estou exagerando? Certo! Foi exagero! Peço licença para exagerar, porque a situação permite... É premente. Estamos na eminência de... Sabe o que é isso?

Bem! Um homem que tem nas suas mãos uma pequena parcela da exportação de um produto que é commoditie, com cotação internacional, já pode ser considerado um homem rico. Agora, se um homem têm mais que uma pequena parcela de toda a exportação de um commoditie, de um país de dimensões continentais, em desenvolvimento, com alta concentração de renda... isso sim é muito dinheiro. É muito rico! Vários bancos nasceram na mão desses "mercadores". Mas não era o caso daquele senhor, porque ele acabava de perder tudo. Tudo! Não tinha para comprar um filãozinho amanhecido. Quebrado! Totalmente quebrado!

E você também sabe que nessa hora, não aparece nenhum amigo. Amigo? O que é que é isso? Aparecem os abutres, os urubus, os porcos, que querem ainda lamber os ossos do cadáver estendido no chão.

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